De 14 a 16 de agosto de 2019 no campus de Naviraí/UFMS 

CARGA HORÁRIA: 32 HORAS

Gerência Municipal de Educação de Naviraí;Universidade Federal da Grande Dourados;Secretaria Estadual de Educação; AGRAER; Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul; Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do SuL; Universidade Estadual de Londrina.

Acadêmicos/as dos cursos de graduação de Ciências Sociais, Pedagogia, Administração, Geografia, Direito (UEMS), professoras/es, gestores e técnicos da educação de ensino médio e superior da rede municipal e estadual, membros de movimentos sociais e sindicatos; lideranças comunitárias e membros da sociedade civil.

Realizar o IX COLÓQUIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UFMS/CPNV, com vistas a elaborar discussões, trocar experiências e fazer reflexões sobre o papel das Ciências Sociais diante das incertezas transversais. A partir de reflexões teóricas e de experiências práticas propor encaminhamentos para enfrentar os desafios dos velhos tempos no campo das Ciências Humanas e Sociais.

*Refletir sobre o papel das Ciências Sociais diante de novos cenários referentes ao campo político;
* econômico, social e cultural do Brasil e do estado de Mato Grosso do Sul e seus desdobramentos;
*Analisar os avanços e os retrocessos nas políticas públicas de igualdade racial, de gênero, de combate à fome, de segurança, de promoção da cultura e demais Direitos Humanos;
*Refletir sobre o desenvolvimento da Ciência no Brasil como um todo diante das limitações orçamentárias e reestruturação dos ministérios;
*Pensar estratégias para fortalecer o campo das Ciências Sociais diante do cenário de desconstrução das Ciências Humanas no Brasil.

O evento, dentre outros objetivos, visa fomentar discussões sobre os desafios das Ciências Sociais diante de um cenário não favorável para o campo das humanidades. Do ponto de vista metodológico e epistemológico, um dos grandes desafios das Ciências Humanas e Sociais é a superação de categorias auto-evidentes, da experiência primeira, da opinião e de pré-noções. As classificações imediatas e as generalizações configuraram-se como obstáculos epistemológicos ao desenvolvimento do conhecimento. Isso implica dizer que a realidade à vista, concreta, aparentemente segura, mantém, em si, estruturas arraigadas que podem conservar um sombreamento que impede uma visão mais clara do homem e da sociedade em qualquer lugar no tempo e no espaço.

O cenário sociopolítico e cultural nacional, como poucas vezes visto, está exigindo da Antropologia, da Ciência Política e da Sociologia, um posicionamento objetivo acerca da desvalorização, da banalização e do descrédito que essas ciências vêm sofrendo. Insurreições oriundas na maioria das vezes do senso comum, pautadas nas formas de classificação imediatas, na opinião e em pré-noções. Se, por um lado, a “exacerbação da competição com outros campos dão pouca relevância às ciências humanas [e sociais], urge reafirmar quanto elas foram e são, hoje, indispensáveis para a construção da diversidade da vida. E, em tempo de um mundo globalizado, são convocadas a abrir caminhos para compreender e atuar na realização universal da vida” (HIZZOTTI, p. 01).

As Ciências Sociais brasileiras possuem vasta produção historiográfica que permite situar o seu surgimento, a sua consolidação e o seu desenvolvimento no decorrer de mais de um século de atuação e produção de estudos e pesquisas sobre o país. Há, no entanto, várias fases desse processo, cada uma refletindo bastante o tempo e o lugar de fala de seus respectivos intérpretes. Antônio Candido (2006, p. 271), falando acerca do desenvolvimento da Sociologia no Brasil afirma que:

No Brasil, podemos distinguir nitidamente, na evolução da Sociologia, dois períodos bem configurados (1880-1930 e depois de 1940), com uma importante fase intermédia de transição (1930-1940). No primeiro, é praticada por intelectuais não especializados, interessados principalmente em formular princípios teóricos ou interpretar de modo global a sociedade brasileira. Além disso, não se registra o seu ensino, nem a existência da pesquisa empírica sobre aspectos delimitados da realidade presente. Depois de 1930 ela penetra no ensino secundário e superior, começa a ser invocada como instrumento de análise social, dando lugar ao aparecimento de um número apreciável de cultores especializados, devendo-se notar que os primeiros brasileiros de formação universitária sociológica adquirida no próprio país formaram-se em 1936. O decênio de 1930, rico e decisivo, pode ser considerado fase transitória para o atual período que, iniciado mais ou menos em 1940, corresponde à consolidação e generalização da sociologia como disciplina universitária e atividade socialmente reconhecida, assinalada por uma produção regular no campo da teoria, da pesquisa e da aplicação.

No primeiro período, citado por Candido, não há ainda uma formação especializada no campo da Sociologia e das Ciências Sociais como um todo no país. Conforme Ortiz (1990, 166) “faltava principalmente uma formação especializada que permitisse a abordagem do problema sob este aspecto [sociológico]. Não existindo ainda no Brasil cursos de Ciências Sociais, os folcloristas, embora sentindo a necessidade de uma focalização nova do assunto, completando as já existentes, não podem incrementar suas pesquisas neste sentido”. Candido (2006) vai dizer que os porta-vozes da visão social do Brasil eram, sobretudo, os juristas, os médicos e os engenheiros, formando, assim, “a tríade da inteligência brasileira”. Os fundamentos teóricos estavam assentados em fatores biológicos e na teoria da evolução de Darwin. Ortiz (1990, p. 165) afirma que até a década de 1940,

a produção do pensamento sociológico no Brasil se fazia dentro de um contexto em que literatura, filosofia, discurso político, beletrismo, se misturavam. Uma disciplina marcada pelo ecletismo e pelo ensaísmo, que se construía sobre o fundamento de afirmações genéricas que prescindiam de um trabalho sistemático de pesquisa. Na verdade, não existia ainda um espaço específico, no interior do qual o saber sociológico pudesse se autonomizar, ele se espalhava pelas escolas de Medicina, de Direito, e pelos Institutos Históricos e Geográficos. A universidade moderna rompe com esta circunstância; ela secreta as condições materiais para o desenvolvimento de uma autonomia científica definida agora por outros parâmetros. A Sociologia, ao se apresentar como uma ‘esfera de bens restritos’, marcada pela ideologia do acadêmico, se afasta de seu destino anterior. Se as temáticas permanecem, elas devem ser submetidas a um processo de reinterpretação. De fato, assuntos como cultura indígena, questão racial, folclore, definem os estudos sobre o Brasil realizados do final do século até 1940. Eles se encontravam intrinsecamente vinculados à problemática nacional, da identidade brasileira. Mas há uma diferença entre os escritos de Câmara Cascudo e os livros de Maria Isaura Pereira de Queiroz ou de Florestan Fernandes sobre o folclore. Uma novidade é introduzida: a Sociologia

Silva e Silva (2012, p. 98) apontam os anos de 1930 a 1940 como um período transitório, onde, segundo eles, o processo de modernização do Brasil estava em seu estado inicial. É sabido que nesse período ganham destaques às análises feitas por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. Passam a fazer parte das análises temas que vão além da literatura e do folclore. Freyre e seus contemporâneos passam a estudar questões ligadas à mestiçagem, à escravidão, à família patriarcal, a formação econômica, às variações regionais etc. Entra em cena um novo marco teórico que vai além do evolucionismo: o culturalismo. Freyre foi influenciado pelo culturalismo de Franz Boas, teoria que influenciou decisivamente a antropologia e as ciências sociais americanas críticas do racismo científico (SOUZA, 2017).

É importante registrar que, na década de 1930, ocorrem duas revoluções no Brasil. A Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista ou Guerra Paulista de 1932. Esses dois acontecimentos colocaram a elite econômica e politica de São Paulo fora do poder central. Esta mesma elite, sendo derrotada por duas vezes em um período extremamente curto, articulou uma forma de obter novamente a hegemonia perdida. A estratégia adotada foi obter o domínio técnico-científico por meio da criação, do fortalecimento e revitalização de intuições ligadas ao ensino e à pesquisa. De acordo com Silva e Silva (2012, p. 101):

Na década de 1930 também houve um fator importante a se considerar na institucionalização da Sociologia, que foi sua emergência no ensino básico e superior. As reformas capitaneadas por Fernando de Azevedo no Distrito Federal e em São Paulo (1927; 1933), incluindo a Sociologia no currículo das escolas normais e cursos de aperfeiçoamento e a reforma federal de Francisco Campos (1931), nos cursos complementares, contribuíram para a consolidação da explicação sociológica no imaginário brasileiro. Nessa década também foram fundados os primeiros cursos superiores de Ciências Sociais na Escola Livre de Sociologia e Política (1933), na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (1934) – ambas em São Paulo –, e na Faculdade de Filosofia da Universidade do Distrito Federal (1935).

A partir da década de 1940 a 1960 tem-se a consolidação definitiva das Ciências Sociais no Brasil, mas a concentração dos cursos e das pesquisas ainda muito concentradas no eixo Rio-São Paulo. O país já havia experimentado o trabalho de pesquisadores estrangeiros em várias instituições, mas, de acordo com Silva e Silva (2012) a vinda de pesquisadores estrangeiros e a constituição de um padrão de trabalho científico para o desenvolvimento da pesquisa, liderado por Florestan Fernandes, marcou o percurso vivido pelo grupo de pesquisadores paulistas. Ainda segundo os autores, a experiência do Rio de Janeiro tem também sua singularidade. Formada por um grupo de intelectuais que ocupavam certas posições políticas, a análise sociológica desenvolvida na então capital do Brasil favoreceu-se da criação de institutos que se constituíram como referência para esse período.

Ortiz (1990, p. 169) que alguns autores começam a dividir a história das Ciências Sociais no Brasil em antes e após 1964. Segundo ele, o corte que lhes interessa não é mais a diferença entre conhecimento acadêmico e senso comum, o debate entre Florestan e Guerreiro Ramos, mas o processo de profissionalização e de institucionalização das disciplinas. Para esse autor:

Não resta dúvida que os dados sugerem esta abordagem. Até meados dos anos 1960 a produção sociológica se concentrava basicamente na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Não obstante, entre 1945 e 1965 foram defendidas somente 41 teses (incluindo Livre-Docência, Doutorado e Mestrado), considerando-se todos os trabalhos nas áreas de Antropologia, Sociologia e Ciência Política. O panorama nacional em Antropologia não era muito diverso; em 1953 havia 41 sócios inscritos na Associação Brasileira de Antropologia. Números modestos, que atestam a existência de um grupo profissional reduzido, girando em torno de algumas figuras centrais — Florestan Fernandes, Arthur Ramos, Darcy Ribeiro. Este quadro muda radicalmente com a criação de uma política de Pós-graduação e de financiamento da pesquisa. Organismos como Finep, Capes, CNPq, FAPESP e até mesmo a Ford, que em 1967 faz sua primeira doação ao Departamento de Ciência Política da UFMG, iniciam um apoio mais efetivo às Ciências Sociais. São ainda criados os programas de Antropologia do Museu Nacional (1968) e na Unicamp (1971); de Ciência Política no Iuperj (1969); de Sociologia, na Universidade Federal de Pernambuco (1967) e na Universidade de Brasília (1970); de Ciências Sociais, na Universidade Federal da Bahia (1968). Ao longo da década de 70 esta tendência à implantação de novos cursos se amplia para todo o país. Entre 1976 e 1984 foram aprovadas 971 teses de mestrado e 145 de doutorado, dados ainda modestos, se os comparamos a países como França ou Estados Unidos, mas que realmente contrastam com os anteriores.

 

As Ciências Sociais no Brasil foram se desenvolvendo conforme a sociedade nacional se transformava, se urbanizava e se industrializa. A partir da década de 1960 os cursos saem um pouco mais do eixo Rio-São Paulo e são criados cursos de Ciências Sociais em outras universidades Brasil a fora. Ortiz (1990, p. 170) afirma que:

Até os anos 1960 a Sociologia era um bem restrito a alguns centros, uma nova situação se instaura com a ampliação desordenada do mercado. Por isso os esforços de regulamentação da profissão se concentram neste período (lei 72.493, julho de 1973; projeto de lei do Senado Nº 74, 1974). O que está em pauta é o reconhecimento da atividade de um profissional que realiza pesquisas e interpreta dados socioeconômicos e culturais. No entanto, a concepção do trabalho intelectual subjacente a este movimento se vincula à ideia de planejamento, coleta de dados para realização de diagnósticos gerais e problemas específicos a serem enfrentados pelas empresas e pelo Estado. Olhando a distância, não deixa de ser interessante analisar essa perspectiva, que funda as Associações de Sociólogos em todo o país.

Tentamos sintetizar, numa espécie de linha do tempo, o processo de evolução das Ciências Sociais no Brasil. Pode-se dizer que esse ramo do conhecimento nasce francês e paulista no país, pois é nítida a influência do funcionalismo da escola durkheimiana nos trabalhos de Florestan Fernandes, fundamentalmente, no texto A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá. Como mencionado anteriormente, as Ciências Sociais, em cada período, refletiram as influências externas na formação de seus autores. Conforme Ortiz (1996) é o caso de Caio Prado e sua tentativa de aplicar o materialismo histórico à compreensão da sociedade brasileira. Havia remotas chances de não ser influenciado pela escola francesa de Sociologia, visto que, no final do século IX, bem como nas duas primeiras décadas do século XX, é o período em que a escola durkheimiana é hegemônica e os estudos culturais florescem. Basta lembrarmos as obras de alguns colaboradores de Durkheim: Marcel Mauss — Essay sur le Don; Bouglé — Essay sur les Castes; Maurice Halbwachs — La Mémoire Collective. Com a fundação de L’Année Sociologique, os estudos de Durkheim se voltam sobretudo para a religião e os povos primitivos. Talvez por isso as temáticas que se impõem ao pensamento sociológico acadêmico no Brasil tenham um quê de “francês”, ou melhor, de “durkheimiano” (ORTIZ, 1996).

Se o início foi francês, depois americano e, por que não dizer, também alemão, hoje pode-se falar com segurança que existe Ciências Sociais tipicamente brasileira, com o desenvolvimento quantitativo e qualitativo dos seus três eixos estruturantes. Tanto a Antropologia, quanto a Ciência Política e a Sociologia, possuem corpo teórico consolidado. As Ciências Sociais participam ativamente da formação do pensamento social brasileiro. É preciso por em suspenso qualquer tentativa de desqualificação ou de suposta inutilidade dessas ciências, pois elas são fundamentais para a compreensão, para a mudança e para o desenvolvimento de toda a Nação brasileira.

Feito esse percurso que buscou demonstrar os caminhos da consolidação das Ciências Sociais no Brasil, partimos agora para o trabalho de demonstrar as especificardes locais que justificam a importância de um evento científico para debater a temática que se relaciona aos desafios das Ciências Sociais em um campo político de discursos não favoráveis aos conhecimentos das humanidades.

Daremos apenas um exemplo de como o evento é importante para as Ciências Sociais no âmbito regional. O evento ocorrerá na cidade de Naviraí, estado de Mato Grosso do Sul, isso remete quase que imediatamente às questões fundiárias e indígenas, remete à grande produção de commodities para atender ao mercado externo, temas que estão na ordem do dia da política nacional. Trata-se de temas desafiadores. O estado tem a segunda maior população indígena do Brasil, ficando atrás apenas do estado do Amazonas. Há no estado as seguintes etnias: Atikum; Guarani kaiowá; Guarani ñandeva; Guató; Kadiwéu; Kiniquinau; Ofaié e Terena, perfazendo um total de 67.433 pessoas. Com efeito, a violência afeta os povos indígenas como em nenhum outro lugar. E não é possível pensar a violência apenas do ponto de vista do embate físico, mas há também a violência psicológica, a violência da fome, da falta de trabalho, da perda forçada da ancestralidade territorial etc.

A questão fundiária no estado é bastante problemática também e, sendo a terra de fundamental importância para os povos indígenas, visto que eles entendem a terra como algo além de um simples pedaço de chão. A terra para os índios é território, algo que remete à sua própria ancestralidade e identidade. Nesse sentido, estudar os povos indígenas do estado é fundamental para compreender de maneira correta e científica seus modos de vida, suas noções de território, suas cosmovisões, enfim, sua cultura e sua sociedade. Esse tema será um dos temas do evento. Outros temas relacionados à Sociologia e à Política também estarão em debate, como as questões de fronteiras, o tráfico de drogas, a geração de emprego, a questão ambiental do estado, o ensino de Sociologia na rede estadual e municipal etc. Refletir e compreender os problemas sociais ligados a essas temáticas são os pressupostos que justificam esta ação.

 

 

Dr. Aldenor da Silva Ferreira (UFMS/CPNV)

Dr. Daniel Henrique Lopes (UFMS/CPNV)

 

Dra. Deborah Silva do Monte (UFMS/CPNV)

 

Msc. Felipe Silva Vedovoto(UFMS/CPNV)

 

Msc. Jeniffer Ribeiro Pessôa (UFMS/CPNV)

Msc. José Henrique Prado (UFMS/CPNV)

Dra. Larissa Wayhs Trein Montiel (UFMS/CPNV)

Dra. Maria Raquel da Cruz Duran(UFMS/CPNV)

 

Dra. Tatiana Braz Ribeiral (UFMS/CPNV)

 

Dra. Telma Romilda Duarte Vaz (UFMS/CPNV)

Dr. Silvino Areco (UFMS/CPNV)

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